Obrigada, Professora Alice
Com enorme tristeza soube do falecimento da professora da PUC/RS, Alice Campos Moreira.
Algumas pessoas são fundamentais na vida da gente, mas nem sempre sabem disso. Imagino que a Professora Alice não soubesse o quanto foi importante para mim e o quanto sou agradecida a ela.
Acho que foi em 2005 que a PUC/RS tornou pública a digitalização de toda a coleção da Revista do Globo, editada de 1929 a 1967, em Porto Alegre, uma publicação de alto nível cultural.
Soube, então, que os trabalhos dos cartunistas Sampaio, meu
pai (publicados de 1946 a 1950), e SamPaulo, meu tio (publicados entre 1954 e
1964), estavam disponíveis na internet para download.
Fiquei muito incomodada. Reclamei à direção da PUC (não
lembro a quem exatamente) e, dias depois, para minha surpresa, recebi um
telefonema do reitor da universidade.
Imaginaram que eu quisesse cobrar direitos autorais, mas
isso nem havia passado pela minha cabeça. Eu apenas considerava um desrespeito
a possibilidade de qualquer pessoa baixar e apropriar-se das imagens.
Ofereceram-me, então, a coleção completa, em 14 CDs. Foi
nessa ocasião que conheci a Professora Alice, que havia coordenado o projeto de
digitalização, iniciado em 2004.
A coleção foi completada graças à junção dos acervos do
Museu da Brigada Militar, do Museu de Comunicação Hipólito José da Costa e do
Arquivo Histórico Moysés Vellinho. Participaram cerca de 70 bolsistas de
iniciação científica da Faculdade de Letras, e o trabalho foi concluído em
2004.
Em 2007, meu pai completaria 80 anos, e pensei em organizar
um livro com suas “cenas coletivas”, publicadas na revista nos anos de 1946 a
1950. Meu tio também publicou na Revista do Globo, entre 1954 e 1964.
Contei a meu pai sobre a ideia, e me pareceu que havia gostado.
Nessa época, a Professora Alice era coordenadora executiva
do recém-lançado Delfos – Espaço de Documentação e Memória Cultural, que,
segundo ela, era “um misto de biblioteca e museu, criado para dar acesso ao
material valioso que compõe o acervo de escritores e jornalistas”.
Conversamos novamente, e solicitei as imagens em alta
resolução para publicá-las. Foi nessa ocasião que ela mencionou a possibilidade
de levar ao Delfos os acervos do meu pai e do meu tio.
Diante disso, pedi à Editora Libretos o projeto do livro com
somente com as cenas coletivas. Com o lindo projeto pronto, meu pai proibiu a
publicação, dizendo que só poderia ser editado após sua morte.
E foi o que fiz: ele faleceu em janeiro de 2017 e, em
setembro de 2018, o livro foi lançado em Porto
Alegre, editado pela Editora Insular, de Florianópolis. A noite de lançamento
foi um grande sucesso, cheia de amigos, parentes, ex-colegas do meu pai. Fiz
dedicatórias em cerca de 250 exemplares.
A Professora Alice, responsável pelo livro, estava presente,
uma presença muito importante!
Meu tio SamPaulo havia falecido em 1999, e sua viúva, Eneida
Sampaio, confiou-me o seu acervo. Ele guardava absolutamente tudo, mas não era
muito organizado, e sua história corria o risco de perder-se.
Novamente procurei a Professora Alice, que me encaminhou aos
professores Assis Brasil, coordenador-geral do Delfos, e Ricardo Barberena,
coordenador executivo. A ideia foi recebida com entusiasmo.
Mas o material estava desorganizado, guardado em caixas,
caixinhas, envelopes de plástico e envelopes de papel. Era impossível saber
exatamente o que havia ali.
Quanto ao acervo do meu pai, infelizmente, não existia porque ele não havia guardado quase nada.
Aos poucos, iniciei de forma amadora, uma primeira organização e a digitalização de algumas charges e, em maio de 2012, criei esse blog e, apesar de já haver passado treze anos de sua morte, o blog foi um sucesso.
Esse foi o grande estímulo para voltarmos a pensar no
destino do acervo e em sua possível entrega à PUC/RS, que já havia criado o
Delfos.
Com o apoio financeiro da irmã gêmea de SamPaulo, Theresa,
foi possível contratar a arquivista Maria Osmari para organizar o acervo de uma
forma profissional.
Finalmente, em maio de 2018 o acervo foi formalmente
entregue ao Delfos, onde está “na companhia” de outros importantes nomes da
cultura gaúcha.



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